quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

MALDIÇÃO DO NÃO LEMBRAR-SE


Voa coruja, mocho, bruxa
Ave noturna na noite sem lua
Voa coruja, e com seus três pios agourentos
Pousa naquela janela onde reside o egocêntrico
A falta de compaixão que, inebriada pelos venenos amargos
Da ganancia e do poder,
Que distorce, entorpece e enegrece
A alma daquele ser

Que precisa sozinho estar, pois sozinho é
Sozinho, centralizar o seu poder
E reter só, para si
O que é de todos e para todos

Rasga-mortalha branca
A voz de Hecate que amaldiçoa e encanta
Os meandros do tempo e espaço
Que aprisionam a triste musa
Que, ao contrário de ser
Por todos exaltada e compartilhada,
É retida para só si e tem a voz calada

O pano do passado
É então, definitivamente rasgado
Para que a musa vendada e estupidamente aprisionada
Não o deixe ver mais nada
Muito menos, lembrar-se
Da coruja que expulsaste
Sua Sabedoria
Sua Sorte
Sua Suindara

E, enquanto, suas brancas asas
Para longe voam...sacerdotisa de todas as Artes
Tudo vai ficando cada vez mais distante,
Mais sombrio e esquecido

A vida, aquela que dá voltas
Se mostra uma encruzilhada trina
E, a sua morte,
Canta e brinda a Suindara.

Simoni Dimilatrov
Santos, 07 de dezembro de 2016

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O SABIÁ SERESTEIRO



(Faz do amargo da laranja, uma doce laranjada)
A existência é composta de caminhos
Um interagir de mentes e sentidos
Num cenário variável
Com diferentes tons de cor

Todo os dias, amanhece e anoitece
Claro é o dia, quando o dourado sol irradia
O calor e anima e alegra a vida
E as matizes das estações mudam numa perfeita mistura furta cor

Mas também, nem todo dia é um bom dia
O melancólico tom de cinza
Avisa sobre a tempestade que se avizinha
Chuva ou frio e as folhas mortas
Zonzeando os pensamentos
Num triste devaneio
O amargor da desilusão
Um labirinto de desencontros e emoções

Mas, é raro, mas se pode ver também
O surgir de um arco-íris
Impressionantes sete cores de esplendor
Tempestade que traz a bonança
Renova-se a esperança
E nos faz lembrar
“Quem nunca provou do amargo,
Não sabe o gosto do doce”

E quando é negra a noite mais tardia
Quando o solitário chora perdas e partidas
Sem ter que fingir a sua dor ou esconder o remorso
Se assusta com a horrenda cara que se forma diante do espelho

Mas, há noites em que a lua sorri
E as estrelas brilham e enfeitam a noite de magia
Nem toda noite, nem todo dia
São ilusões ou falsas alegrias
Lá fora existe vida, belas canções e lindos risos
Não só choro  e corações partidos

E, em silêncio, quem tiver sensibilidade e sabedoria,
Para apreciar e ouvir a voz da natureza
Ouve a arte vibrante alento do sabiá laranjeira
Através de sua maviosa e incomparável seresta

Capaz de transformar o choro em lágrimas de ouro
Na perfeição de pássaro seresteiro e poeta
Entoa o antigo e eterno Canto da Piedade
Para aplacar aquela saudade
De um sonho que acabou

Mas, além de poeta e seresteiro,
O Sabiá é ave que também sabe rezar
E, suavemente, no final de uma silenciosa madrugada
Renovando, a cada nova primavera
As crianças e os inocentes de coração
Que, ao ouvirem seu misterioso e milagroso canto
São abençoados com seu benfazejo encanto
Por isso, canta em minha rua meu sábio sabiá
Um cantar que cura tudo, o homem e o mundo
E irradia paz, amor e felicidade.


Simoni Dimilatrov
Santos, 29 de novembro de 2016

OS TRÊS FANTASMAS

Quando se está realizado
Quando os bons ventos sopram a favor
Quando além de talento, esperteza e inteligência
Existe a perspicácia e uma rede de amizades
Que se apoia e se ajuda
Não existe a sensibilidade de perceber
Que alguém que nada tem
Esteve sofrendo e chorando

As pessoas se livram das outras
Como se fossem roupas ou coisas que não lhe servem mais
E, tristemente, descobre-se
Na pior hora, a que mais se precisa
De que o mais fraco foi, até o fim, amigo leal, dedicado e fiel
E que o mais forte, que sempre se bastou
Vai embora para evitar ter que ser
O amigo que nunca foi

E num espelho mágico e amaldiçoado
Aonde se poder ver o passado, o presente e o futuro
Os fantasmas do velho Dickens perguntam
O que foi o que você fez?
O que foi que você não fez?

Velhas histórias de repetem
E, cada coração é o que reflete
O passado lhe serve para alertar dos bons e dos maus feitos
O presente indica o livre-arbítrio,
O poder da escolha sobre decidir e fazer, o que é certo ou errado
No qual, ao final, determinará,
A cor das vestes que o fantasma do futuro vestirá
Quando este se apresentar,
Para vim lhe buscar e lhe cobrar.


Simoni Dimilatrov
Santos, 29 de novembro de 2016

CHAVES E PORTAS

Por que?
Tudo se fecha?
Quando precisávamos que estivesse aberto
E tudo se torna ironia
Quando o ontem não tem mais nada a ver com o hoje
Quando a dor se torna angústia
Tão certa é a vida quanto a incerteza

Há uma imensidão
De dúvidas e promessas
E quando nada nos interessa
Ou resistimos
Enfim, derrotados, se faz um esforço hercúleo
Quando não vemos no horizonte
Satisfação e realização

Apenas uma outra opção
Para sobreviver e seguir
Apenas aceitação
Para não tornar as o ruim pior

Quando deveríamos apenas viver
Livres para fazer escolhas
Que não nos rebaixem a um estado de vontade de morte

Por que queremos o tempo todo?
Manter o que não se pode decidir
Por que ainda resistimos?
Quando de repente, o vento soprou e tudo mudou
Uma montanha de areia impediu e separou
E nos levou algo de caro e amado
Sem sequer deixar recado

Por que é difícil lidar com o brusco da imprevisibilidades
Com repentinos e impensáveis
Términos e recomeços
Quando se pensa que foi muito pouco
O que se pensava que duraria uma vida inteira
Ou que tínhamos algum controle
Que tínhamos algo
Quando nada tínhamos

Testes de adaptabilidade
Provas de resiliência
Manter-se frio e em equilíbrio
Ter no lugar do coração, um músculo

A dor não une ninguém
Nem a compaixão e a mais prezada amizade
Quando as coisas se tornam esquisitas, confusas e incertas

Esses finais parecem tão mortais
Na verdade, eles matam sim
E a morte dói, a morte de algo, de um sonho, de um apego, de algo que amamos
E temos que aprender a desamar, a desapegar e a partir
Como cinzas jogadas ao vento
Forma de espalhar qualquer vestígio
De saudade, remorso e dor

As portas se fecham
Janelas se abrem
Para sempre é uma utopia
A mudança é real e quase sempre inesperada

E você vai...
Porque tem que ir
Para aquela porta que se abriu
Quer goste ou não
Com choro ou com o orgulho engolido a seco e entalado na glote
Você vai e não escolhe.

Então vá...
Com a cabeça cheia de esperança
Vai rezando, vai clamando
Por sorte, por D´us ( יהוה) e pelos anjos
Porque você vai...
E o destino nem sempre se escolhe.

E eu vou...
E eu clamo que desta vez seja sem dor
Seja diferente...seja feliz, seja melhor
Seja a grande e esperada hora
Seja a porta do milagre, a porta aberta por Adonai
De entrar pela porta certa que abrirá outras e melhores portas

Que eu seja bem vinda, que eu seja querida, que eu seja feliz e abençoada!

Simoni Dimilatrov
Santos, 28 de novembro de 2016.

domingo, 27 de novembro de 2016

ADEUS MNEMOSINE, SALVE AS NOVE MUSAS!

Dizer adeus a algo ao que se dedicou com amor e devoção
É difícil e doloroso
A perda, a mudança, o não mais pertencer...
Não viria sem lágrimas, luto, dor e o necessário sepultamento
Depois mais choro, até que se sequem as lágrimas
O obrigatório consolo, o desapego, o reerguer-se e depois a saudade...

Mas, assim quis o destino
O término de tudo isso
E a exaustão da última humilhação e do sem fim de decepções
Tudo por
Mnemosine Para poder apenas servir a Mnemosine

Mas, não pude mais minha amada deusa Mnemosi
Cansada, vencida, excluída e recrutada para outras lutas
Que qualquer outro poderia fazer
Se houvesse respeito e o mesmo reconhecimento
Que por ti me dei em sacerdócio
Mnemosine

Quando, por um acaso do destino, sorte ou loteria
Eu a conheci, logo me apaixonei e amei Mnemosine
Mas, nunca realmente pareceu deixar-me servir e cumprir
O sacerdócio à Deusa que despertou a magia, o amor dedicado, leal e especial
Pois se assim fosse, jamais nos separaríamos
Amada Deusa Mnemosine

Mesmo assim, eu lutei, insisti e até briguei
Por amor e louvor a Mnemosine
Poucos consideravam o quanto isso era importante para a mulher iniciada nos mistérios da Deusa
Não era apenas um mero trabalho, mas um honra, um sacerdócio

Quantas vezes, morri e renasci por Mnemosine
De tempos em tempos havia a paz
Embora me fosse apenas permitido
Tocar em uma ou outra parte dos seus domínios

Mas, por algumas vezes, Mnemosine
Eu sempre soube que jamais pertenceria a mim
Por não haver a possibilidade de uma Deusa pertencer a nada e a ninguém
Seja humano ou desumano


Apenas em sonhos e falsas juras ambíguas
Desonrosamente descumpridas, em palavra de duvidosa valia
Foi assim, que por caprichos e egos
Eu perdia e recuperava, Mnemosine
E de ti cuidei, protegi e seus mistérios desvendei

Por ti, Mnemosine, quantas vezes clamei
Quanto tempo me dediquei
Quantas decepções enfrentei
E "Sabia", eu "Queria" mas era impedida de "Ousar", tendo então que me "Calar"


Viver por você e para você
Saiba que eu fiz de tudo
Tentei, lutei em até no exíliom a ti me dediquei

Mas, amada Mnemosine, eu consegui a ti me dedicar
E, quando você me foi afastada, negada, retirada, devolvida
Me levando a loucura e ao desespero

E, para a minha própria sanidade,
Quando levada ao limite da tortura
A espada apontada para a garganta
Chorei e morri,
Naquele dia, eu senti que era impossível
Insistir...
E finalmente, a venda negra que vendava meus olhos
E as cordas que amarravam minhas mãosForam por ti retiradas
E e
u recebi a absolvição e a sua iniciação


Mas, uma deusa não pode ser de ninguém!
Nem seus domínios centralizados
Nem juramentos que se não cumpridos
Despertam a sua fúria
...

E quando se chega ao limite
É melhor, para aquele que sofre, ama e perde
Recolher-se e recobrar-se da sofrida e compulsória despedida

E agora, Mnemosine, o que me resta...
É seguir o meu destino, desta vida de términos e novos começos
Incertos e, provavelmente, mais do mesmo
De mal a pior como sempre
Tendo que esquecer o amor e o ardor que nutri por ti
Mas, eu sei minha senhora Mnemosine
Que lamentas e entendes
Pois é Deusa da Memória
E sabe quão honrado e dedicado foi a ti meu sacerdócio

Ou quem sabe, a magia e o milagre finalmente aconteçam
Que assim seja e assim se faça,
Mnemosine!

Mnemosine, amada
Gratidão pelo nosso tempo
Mesmo não tendo sido do nosso jeito
Aquilo que eu e você pretendemos

E, se podes algo, e sei que podes, Deusa imortal
Deusa da Memória, mãe das nove musas
Olhe por mim, adorada Mãe Mnemosine
Nesse caminho desconhecido que trilharei
Sem a alegria dos nossos dias
Possam a senhora e as suas nove filhas me abençoarem
E me concederem a felicidade, a prosperidade, o sucesso
O respeito, a paz e o reconhecimento

Mnemosine, Deusa Mãe das Nove Musas
Sou merecedora de seus dons e o de suas filhas
Me faça, agora, sacerdotisa iniciada perfeita e escolhida
Para fazer pela Cultura e pela Arte o que deve ser feito

Mnemosine, para sempre, em minha memória
Grande Deusa, Grande Mãe
Mnemosine 
Que jamais esquece quem tão bem lhe serviu e lhe ama
Seu ofício e
memória
Guardadas no fundo do meu coração
Tudo passa, Cronos o senhor do tempo a todos devoram
Menos a Memória e a História
Dádivas sagradas de Mnemosine

Ora por mim deusa Mnemosine
Para que nossa repentina e dolorosa separação
Me compense, de alguma maneira
Por uma questão de mérito e de sua benevolente justiça divina

Da certeza de sempre ter plantado bons frutos em sua honra
De quem a amou e serviu com dedicação e louvor
Sacerdotisa de
Mnemosine

Talvez Mnemosine, esse sofrimento que experimento
Indique uma luz no fim do túnel:
A hora da boa, respeitada e justa colheita
Seus presentes, seus dons e sua glória!
Que me tornam feito Deusa, feito as nove Musas
Guardiã mistérica de seus poderes e dons
Fênix de fogo, inspiração e Artes.


Com amor devocional e eterno,



Simoni Dimilatrov
Santos, 27 de novembro de 2016


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A deusa Mnemósine, personificação da "Memória" , irmã de Cronos e Oceanos, é a mãe das Musas. Ela é omnisciente: segundo Hesíodo (Teogonia, 32, 38), ela sabe " tudo aquilo que foi, tudo aquilo que é, tudo aquilo que será." Quando possuído pelas Musas, o poeta inspira-se directamente na ciência de Mnemósine, isto é, no seu conhecimento das "origens", dos "primórdios", das genealogias. " "Com efeito, as Musas cantam - ex arkes - (Teogonia, 45, 115) - o aparecimento do mundo, a génese dos deuses, o nascimento da humanidade. O passado assim desvendado é mais que o antecedente do presente: é a sua fonte. Recuando até ele, a rememoração procura, não situar os acontecimentos num quadro temporal, mas atingir o fundo do ser, descobrir o original, a realidade primordial de onde proveio e que permite compreender o devir no seu conjunto."
(Mircea Eliade)


Mnemosine - A memória personificada, filha de Urano (o Céu) e de Gaia (a Terra), é uma das seis Titanides. Durante nove noites seguidas Zeus a possuiu na Pieria e dessa união nasceram as nove Musas. 
Titanides - Seis filhas de Urano (o Céu) e de Gaia (a Terra), chamadas Febe, Mnemosine, Rea, Téia ou Tia, Têmis e Tetis.
Musas - As nove filhas de Mnemosine (a Memória) e Zeus. Além de inspirar os poetas e os literatos em geral, os músicos e os dançarinos e mais tarde os astrônomos e os filósofos, elas também cantavam e dançavam nas festas dos Deuses olímpicos, conduzidas pelo próprio Apolo. Na época romana elas ganharam atribuições específicas: Calíope era a musa da poesia épica, Clio da História, Euterpe da música das flautas, Erato da poesia lírica, Terpsícore da dança, Melpomene da tragédia, Talia da comédia, Polímnia dos hinos sagrados e Urânia da astronomia.
Kury, Mário da Gama. (1990). Dicionário de Mitologia  Grega e Romana. Jorge Zahar Editor Ltda. Rio de Janeiro, RJ. pp. 405.