domingo, 31 de julho de 2016

FRÁGIL É A CARNE


“Com o suor do teu rosto comerás teu pão, até que te tornes ao solo. Pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás.” Gênesis 3, 19

Há verdades e vultos
Na dimensão de seus olhos
Houve corpos e almas no seu passado
Há estradas e florestas no caminho

Tantas ruas e estradas
Pelo céu ou pelo mar
Não se sabe quando
Se deve ou não evitar

A inocência da juventude
Concede um mergulho profundo e desconhecido
A iniciação é íntima e individual
A busca por  encontrar

A vida é uma estrada particular
Um antigo mapa de alguém não poderá levar
Ao destino em que cada um
Precisa chegar

No meio do caminho...
O cansaço
É preciso recuperar o fôlego
Esforço!

No meio do caminho...
Não deveria haver mais o medo de cair
Após tantas quedas
Coragem!

No meio do caminho...
Querer voltar atrás
É impossível encontrar igual
Começar de novo
(Re)Comece!

No meio do caminho....
A reflexão
E o tempo necessário
Para a cura e a redenção
Perdoe!

No meio do caminho...
O que é o amor
Em meio a tanto desamor...
Ame!

No meio do caminho
Perdido, sozinho e abatido
Levante-se!

A distância pode ser curta demais para se perceber
Quem é você?

Comum como aos que seguem o rebanho
Quem é você?

Solitário como são os gênios incompreendidos
Quem é você?

Inconsciente como os loucos, no êxtase do caminho
Quem é você?

Quem você é?
Para você?
Para o outro?

Muros, prédios, cercas
Becos, horários, ruas sem saída
Idas e voltas
Idas apenas
Voltas jamais
Mesmo que o mundo seja uma bola
E que andemos em círculos

E os valores?
O que vale a pena?
Valeu a pena?
Todo valor tem um preço
Nem todos valem nada

Sem eira e nem beira
Aos trapos, o andarilho

Com eira e beira
Aos reis, a pompa, a vaidade e orgulho
Dos súditos a submissão
Nunca o amor

O homem odeia servir
Mas ama ser servido
A abnegação é só para as mães

A todos, inevitavelmente
O tempo é consequência
Seja opcional
Seja obrigação
Feliz ou não
Nesta prisão

Assim é o destino
Tão misterioso quanto Deus
No primeiro grito, o fôlego da vida, Ele(a) diz olá
No último suspiro, o silêncio da morte, Ele(a) diz adeus

Assim são todas as caminhadas
Todos os caminhos se afunilam
Todos os caminhos terminam no mesmo lugar
Tudo vem do pó e tudo volta ao pó.

S. Dimitrov
Santos, 31 de julho de 2016.








sábado, 30 de julho de 2016

BALADA AO NOSTÁLGICO



Naquela rua de falsos brilhantes
Que tu ladrilhaste como um farsante
Erigia ardilosa vingança
Disfarçada de amor imortal

Num insensato momento
Em dois caminhos dividiu
As juras viraram promessas, mentiras e traição
Uma história destruiu
Sem nenhuma compaixão

No ponto em que partiste
Uma pedra oblonga ergueu
Impiedoso e indiferente
Por outro caminho seguiu contente

O triste trovador
Era um hábil jogador
Cantava e encantava
Mentiras e desamor

Sempre é triste toda última canção
Que parte, para todo o sempre, um coração
Que no fim de tudo se desculpa e lamenta
Chora de pena e não encara de frente
Quem deixa à mingua, só e penitente

Dedilha no velho violão
Em silêncio rememora uma antiga paixão
A balada toma corpo, rosto, nome e alma
Lágrimas e emoção se confundem com a razão
Insepulta, maldita e eterna saudade.


S. Dimitrov
Santos, 30 de julho de 2016

quinta-feira, 28 de julho de 2016

CANTO DA MADRUGADA


Saio de mim esta noite
Apenas a música, o vento e este voo solitário no céu
A cidade cruel adormecida
As feras internas sonham sobre suas camas
Suas casas, seus cargos, seu poder, seu dinheiro
Presas ao mundo de intrigas
Jogando o velho jogo do poder
Roubando, magoando e matando



E eu? Criei asas
Não voltarei mais para casa
Porque eu não tenho mais casa
Nem emprego, nem cidade
Nem nome, nem dinheiro
Nem quem me queira bem
Nem tenho alguém a esquecer

Eu tenho a noite
A solidão
A imensidão
Dois grandes olhos cor de estrelas como norte
E uma lua que ri de minhas estripulias
 

E eu nunca mais escreverei nada
Tenho asas não mais penas
E eu nunca mais falarei nada
Minha boca é um longo bico
Agora eu só canto e encanto
O canto da madrugada
Que só os bons podem ouvir.


S. Dimitrov

Santos, 28 de julho de 2016

terça-feira, 26 de julho de 2016

SIREN(A)*



SIREN(A)*

Inverno no litoral
Mais um ano, de quantos que ainda restam?
O mar cinzento e melancólico
A companheira solidão ao caminhar
O incessante marulho,
Sempre o mesmo cantar
Na praia deserta, a beira-mar
Os pés nus, mente ao léu
Deixa-se levar...
Sempre para o mesmo lugar

No rosto o vento norte...
Sopra severo lembrando que tudo morre!

Frio congelante e dor
Zéfiro desalinha e leva os poucos cabelos
Desbotados pelo tempo
Ralos e partidos pela velha angústia de envelhecer
E ter que carregar o peso de ser e sobreviver
As várias mortes
Que sempre morremos e renascemos

Pudera tal ventania
Espantar para longe
A memória das folhas secas
E levar estas rugas frescas
Para distante daqui
Ou, a esperança de quem eternamente vela e espera
O tempo fazer apagar
Ou tornar a soprar a benfazeja brisa
Do verão e da juventude
Do frescor da primavera
De perfumes e romance

Mas sobre esta morta vida
A eterna penumbra e nevoeiro
Nem a luz do farol eu vejo

Um antigo e amado rosto
Se forma nas ondas barrentas
Um redemoinho que abre um portal
Para um passado atemporal
Sombrio, mudo e afastado
Triste lembrança da desvalida
Que de tanto chorar
Se afogou e morreu de amor

E segue assim, andante
Pelo tempo a vagar e a sangrar
A penar e expiar
Desvalida e demente

Como a ave da noite
A triste sirena
Entre maldições, cânticos e lamentos
Chora lágrimas de eterno sofrimento
Fazendo aumentar
O sal deste mar


S. Dimitrov
Santos, 26 de julho de 2016.

*Siren: pássaro dos antigos mitos eslavos pagãos que representa a tristeza.

domingo, 24 de julho de 2016

EROSEX*



Viver de segredos, de jogos de amores
Seduzir e beijar qualquer boca
Só para colecionar
No fundo, ama a todas
Amas a mulher, não importa qual
Sem distinção de cor, idade, mentalidade...
Delicia-se a provar e a desfrutar da variedade

A paixão que é mestre em despertar
Logo consome e descartar
Como um secreto esporte,
Seu maior prazer

Esse vício insaciável
Abstinente da droga de amar
Atormentado pelo medo
Escravo do desejo e da luxúria
Esse amor, o amor que sabes dar
Uma vez, duas vezes e nada mais
É doente e demente

Desditosa a mulher
Que para ser feliz
Se entrega e se rende
Ao filme que encenas por mil e uma vezes

E não permance, encerra, bota uma pedra
Magoa o coração covardemente
Tens o errôneo conceito
De ser bom
Quando és na verdade
Devasso e indecente

Toda mulher é amada romanticamente
Docemente como flor sorvida
Galante...mente, elogia
Seduzida e entregue
Sedenta a amar
Entre lençóis e os perfumes do sexo
Vigorosamente a vibrar o deleite do clímax
E se acabas e silêncio...
Constrangimento esfrias
Vais, do furor a calma
Encerra-se a promessa de levar-se às nuvens
Do sonho de amor
Ela, de repente desperta
E vê a magia morrer

Vai e foges
Deixa de ser o homem
Antes que o sonho de amor
Se torne um pesadelo

Vai-te embora, satisfeito
Do tempo do corpo
Que lhe aplacou a fome
O amor se transforma em lágrimas
Que caem das nuvens carregadas de dor
Acalmando a sede

A morte do amor cai como uma sombria tempestade
Que explode em raios e gritos
Do pranto desvairado e abandono
Que abre a ferida e faz sangrar
O coração de mulher

O desfecho de tanta intensidade
É manter segredo sobre o momento de falsidade
Fingir que nada aconteceu
Levar secreto, no coração
Um pouco de amor...amor...desamor
Para mil amores, de todos os tons e sabores.

S.Dimitrov
Santos, 24 de julho de 2016.

*Sexomaníaco: homem que possui a patológica ou a mania insaciável de fazer sexo. Viciado em sexo.

Erotomania: exageração, às vezes mórbida, dos sentimentos amorosos e do fascínio por contatos sexuais; mania de sexo.

Erosexomania: junção dos termos, neologismo que aglutina o significado de sexomaníaco e erotomaníaco incluíndo o vício pela variedade.

Erosex: licença poética.