domingo, 9 de abril de 2017

CAUTÉRIO E A GRATIDÃO DE AMOR

I

Nesta noite solitária
Eu sinto o vento entrar pela janela
Esta meia estação é sempre tão triste
E a infelicidade se repete
Quanto o céu, desta noite, sem estrelas
Sem aquela velha chama de emoção
São como restos secretos
Que, protegido e selado a sete chaves
Choram a muda saudade
De um amor que por ser indecente
Condenou os amantes que eram inocentes
Ao exílio, depois a morte mas jamais ao esquecimento

Eu ouço os acordes da velha canção...
Se eu pudesse me lembrar...
Que aquele seria o último olhar
Se eu pudesse me lembrar...
Que aquela seria a última palavra
Era despedida disfarçada de promessas
De outros e muitos felizes dias

Se eu pudesse ter uma tela em minha mente
Que me mostrasse o último momento
Em que jamais soubéssemos que
O espaço e o tempo decidissem destinos
Nos levassem, em sacrifício de amor e martírio
A lamentar este momento
Que se repete em cores pálidas, insípidas e amenas
A temperatura morna e serena
Que relembra a promessa do que não fomos

O que era raio de sol
Hoje é eterna noite de contemplação
De tristeza e de amor
Feito galho retorcido sem vida, sem folhas e frutos
Mas que ali insiste em manter-se bravio e firme
Para ferir e para mostrar
Que foi, que é e sempre será
Amor

Simoni Dimilatrov
Santos, 09 de abril de 2017

Imagem: Brünnhilde e Grani se sacrificando nas chamas do funeral de Siegfried no final do Ato III de Götterdämmerung.

terça-feira, 4 de abril de 2017

MEU AMOR

Meu Amor, o mais lindo dos amores
Fica pequeno, quase escondido no meu sofrido peito
Quando, por um breve pensamento,
Eu relembro a preciosidade e a raridade deste amor

Meu Amor, foi e sempre será
Como um raio de sol
Que nunca mais vi
Nas manhãs, as mais doces e as mais belas
Incomparáveis e memoráveis
Quanto aquele tempo que nunca passou
Apenas, por uma breve vida
Congelou

Nossas vidas eram amar
Sorrir a cada reencontro feito jovens no primeiro amor
Viver, se entregar e sonhar
Sem nas consequências pensar

E agora que o sol se foi
Esperar pelo sol, em minha janela entrar
E fazer dissipar as trevas que me cegaram
Me fazer novamente enxergar
O que fomos, Um, em iluminação
Junto eu sempre estive
Pois sou parte do meu Amor

O Amor que, em silencio ama
Que, na distância clama
Que, por anos fica guardado
No lugar mais secreto do coração
No lugar onde a saudade dói
E as lágrimas vertem secretas
E as entranhas gritam discretas

"Eu te amo, eu te amo, eu te amo"
É o que você me disse, naquele dia
Sem que me desse a chance de me antecipar
Como eu costumava fazer, sem ao certo saber
Que era eu que escolhia amar
E fui amada, adorada, endeusada
Como nenhuma mulher nunca o fora

"Eu te amo, eu te amo, eu te amo"
Do fundo de minha alma, comovida eu lhe disse
Por mim anos eu o mesmo diria
É o que sempre direi
Não importa o tempo...
Eu ainda te amo, eu te amo, eu te amo
Sempre amarei
A você e a esse amor que não pode ser

Meu amor não foi mentira
E, se o seu, foi de verdade ou apenas uma traquinagem?
Brincadeiras que os homens fazem
Para se sentirem mais jovens e mais viris
O encanto do seu olhar não era o de afirmação
Em seus olhos haviam o brilho do amor
E em suas mãos suadas, o desejo do toque
E as nossas fomes se perdiam
Quando nos consumíamos e trocávamos
Tanta energia

Não me fizestes uma canção
Para virar hino de outros amores
Não me escrevestes um poema
Para ser compartilhado aos que se amam
Mas me destes o teu Amor, verdadeiro e infinito
Que nunca haveria razão para se apagar com o pesar dos anos
Quando a chama costuma diminuir
Nosso amor era daqueles para se ser amado
Sem nunca haver lenha que o levasse a se extinguir

Mas numa noite de terror
Quis o destino, nos afastou
Eu não o vi encontrar um meio, a chave estava em suas mãos
Apenas eu fiz isso, me expondo a situação
Entre lágrimas e sangrando
Um atônito e o outro desesperadamente tentando
Apartados ficamos

Restou uma saudade
Que nunca passa, que em tempo algum se acaba
E jamais precisaria lhe dizer nada
Nem nunca mais lhe ver, como se é para ser
Mas, as palavras que foram ditas
Essas, para sempre, irão permanecer
Assim como a ferida que sangra e nunca estanca
Nos meus sonhos você vem me ter
Como deveria ser e é
Sem deveres, sem direitos
Universo paralelo

Neste mundo tão cruel
Meu amor, aquele que é e sempre será
Lindo, per(feito) e simbiótico
Inexplicavelmente, tímido, trêmulo
Misteriosamente, doce, quente, uno
Como a flor azul feito o céu da manhã
Do qual nunca despertei:

“Não me esqueças”
"Nunca me esqueças"

Nós éramos mais que divinos nisso
Que até os deuses nos invejavam
Eu, que tanto evocava alguém como tu
E você, que tanto clamava por alguém como eu
Precisamos tanto um do outro

E assim sempre será
Nós dois, pela eternidade,
Há quantos anos ligados por um fio tênue e secreto
A felicidade ecoou como areia de estrelas pelas nossas mãos

Apenas mais uma vez
Espera-me meu amor
Apenas mais uma vez
Eu espero por você, amor

Eu não preciso fazer você ver
Nesta estranha e cruel distância
Que sofremos e sentimos a mesma e velha falta e esperança
Do dia em que acordamos e nos libertarmos
Para não só um dia vivermos
Mas toda uma vida
Que fizemos por merecer

Uma bela música entoa
Toca no fundo, faz emergir a lembrança
De poamar e amar
Uma prece a você

E não importa o tempo
Eternamente assim será
O que você significou e o que significa para mim
Tudo o que fomos e ainda somos
Se repete nas mornas manhãs
De um sonho que nunca acabou

Eu entendo que não possas fazer
O que dizia que faria
Não faça nada pois o destino é inexorável
No tempo certo, a fiandeira desatará os nós
Fazendo de nossas vidas
Um fio reto e inquebrável
Que encerrará o final do sacrifício
Para sermos um, naquele amor que merecemos
Retomaremos a nossa jornada

Eu quero você,
Eu amo você,
Nada que é eterno acaba
Haverá um tempo e um modo
E a recompensa limpa e justa

Meu amor, meu lindo amor
O amor que permanece longe das vistas e do abraço
Nenhuma palavra, nenhum sinal, muito menos um encontro casual
Só o silêncio transbordando o amor constante pelo peito
Represado nos rios profundos e seus mistérios

E, para todos os que se amam de verdade
Não precisamos de palavras e juras
Expressões, convivência e o tempo que não conhecemos

Se temos sonhos, sonhemos o sonho
Se temos um amor, em sonho, este vive para sempre
Se ansiamos pelo reencontro o sonhos se torna real e infinito.
Não é feito de chama por jamais ser fogo e paixão passageiras
É eterno e imortal, por ter sido amor real

Santos, 09 de abril de 2017
Simoni Dimilatrov

Á ESPERA DA SENHORA DA MORTE

Sombras invadem um cérebro
É noite e seus olhos se abrem na escuridão
O som ecoa de um ouvido ao outro
Só há vazio e solidão


Dentro da noite
As horas parecem eternas para ele
Que, sentado em uma fria cadeira,
Vegeta sem mais nada pensar, sentir e saber

Morte em vida
Haveria alguma estranha razão?
Talvez os caprichos das enigmáticas três Senhoras
Que, responsáveis pelo destino,
Fiam invisíveis e insensíveis
O definhar macabro de um ser

Por quê... Por quê?!

Grita mudo um coração
Que bate incessantemente
Sem auto compaixão
Sem poder contar com a divina intervenção

Existe um tempo
Existe um fim
Existe o ter que se cumprir
Uma pena que faz Deus
Parecer frio, injusto e cruel

Em sua mente, a visão do terror de seres das trevas
A tormenta e os sussurros
Sem ter sequer o direito
A pedir por clemência

A vida vegetativa é um severo castigo
É a morte que não morre
Ter que viver sem sentido
Existir sem motivo
Incompreensível
Mas, de alguma forma, válido e justo
Ponto de vista

O corpo vivo e imóvel
O sangue quente pulsando
Feito sela privada de qualquer sentido
A mente destruída compondo uma existência inútil e vã
Ser o peso morto para os seus
Que, unidos por dever, moral e amor
Provam-se em dura penitência

Havia algo naqueles olhos nublados pelo tempo
Que revelavam que ali,
Havia uma alma que fora presa
Por algum motivo desconhecido
Mas, no sobrenatural
Nem todos acreditam

Fora impiedoso e repulsivo em seu passado
Agora havia escolhido ou fora obrigado
A cumprir suas faltas assim

Os olhos arregalados, o semblante monstruoso
Ter que viver da forma mais triste
Pelo mal, do qual, sequer se lembra
Vegetando, ano após ano,
Encarcerado em si mesmo
Privação e expiação

Obsessão
Loucura vibra, pane mental
Delírios e o balbuciar de sons sombrios
Vontade inconsciente que implora sempre

A longa espera nem sempre paciente
Daquela temida senhora
Para ele benevolente

"Se não tive o bom da vida
Que venha o bom da morte!"


Em sua eternidade
Muitos crimes cometeu
Há tempos, se arrependeu
E a mais dura penitência escolheu
Viver, todos os dias, morrendo
Sem sentimentos, sem sensações
Era preciso pagar o quinhão

As sombras vão se dissipando
Os atos, os castigos e as consequências
Lapsos de esparsas lembranças
Terríveis pesadelos

Do que, um dia, fizera àquela mulher...

Sonha sempre o mesmo sonho
Quem lhe assiste lhe vê sorrir
Confia que, naquele pobre e provado ser
Existe, nem que seja, algum resto de consciência e dever
Sorria querido, sorria
Sorria eterna criança
Que o fim de toda prova
Dura, exatamente, o tempo certo
Sonhe e sorria que logo ela chega
Na forma de velada Deusa Negra
A Rainha da Noite Negra
E assim ouvirás, o bater se suas longas asas
Confie em suas sábias e divinas palavras e vai

“Porque morrer não dói, o que dói é viver”!

Simoni Dimilatrov
Dedicado a Deusa celta Morrigan e as Nornes
Santos, 21 de março de 2017


terça-feira, 21 de março de 2017

LÁGRIMAS SINCERAS



Por muito tempo
Só havia a escuridão
E a vida passava
Rápido demais

E você veio
Invadindo o meu ser
Me dizendo coisas
Difíceis de compreender

Eu viajava alucinada
Minhas fantasias
Meus sonhos
Eram teus


Você se foi
Rápido como veio
Tirando de mim
Tudo o que eu conquistei

Minhas lágrimas sinceras
Chorei por você
Chorei por mim
Chorei por você
Chorei por nós

Simoni Dimilatrov
Série: Aos vinte
São Paulo - 1994

terça-feira, 7 de março de 2017

QUANDO O AMOR NOS LEVA AO INFERNO I



Se você tem vontade
De pular a cerca e achar que ali há um doce nunca antes provado e que, ao experimentar, consequências nenhuma trarão...
Cuidado! O amor pode ser como uma serpente
Que lhe envolverá o corpo inteiro
Satisfazendo a sua gula e luxúria
Ao ponto de chegar a lhe sufocar
Podendo até mesmo, matar!

E se você cede, aos apelos

De fugir para um mundo irreal
E ousar entrar nos meandros de uma perigosa fantasia
Enquanto ela lhe provoca dizendo fazer amor
E você finge fazer também
O orgulho lhe impede de confessar
O crime e as consequências
Diz que é apenas novidade, vontade e desejo
Para obter absolvição da própria falta
Prende-se como a mosca ao cair no mel

Quando vocês, furtivamente, brincam de fazer amor,

E gozam no sentido exato do gozar
E desprezam o sentimento alheio
Que não é porque não sabe que o fio de amor não se rompe
Cuidado! Ao se olharem no espelho,
O feitiço pode virar contra o feiticeiro

E a dama traída, de vítima se torna vilã

O dual da princesa que se torna bruxa
Ao ver a verdade através do espelho negro
E, do pressentimento de tudo o que lhe é feito
O revide faz com que retorne o doloroso
Mentir e trair
E o falso “ninguém é de ninguém”
Da vazão a posse, a gaiola dos loucos
O ressentimento, o revide e as lágrimas

O desejo foi tão grande

Assim como a paixão pelo pedante
Que ela buscou o amor em um clone
Existem muitos iguais a qualquer um de nós
Espreitando, se oferecendo, convidando, fugindo
Mentindo, traindo e magoando

E agora não é preciso, esconder, nem mentir

Esperar pelo que se anseia
De ser e estar bem e feliz
Como tanto se quis
Recriar alguém para si
Caçando na noite, bebendo vinho
Dançando em vitrines reais ou virtuais


Agora você não está mais sozinha

Fazendo desenhos e convites tolos
Para quem não admitiu que gostava também
De romance, homenagens e estima
Nem que fosse para aumentar
O fogo que alimenta o orgulho e a vaidade
E a vingança

E assim fez-se o jogo

Selvagem, louca e romântica
O dia era um sonho de esperança
E a noite a lembrança e o virar insone sob a cama vazia
Despertava o clamor de insistir em um proibido romance
Como é cruel o frescor e a novidade de uma paixão
Contra um velho e moribundo amor

O que mais se quis

Era tocar-te muito, baby
Como tocou-me
Como toquei-te
Ao ponto de que julgasse suficiente
Cobrar-me a presença
Tentar-me com seus licores doces
Entre chicletes de menta

Mas o amor é assim

Nunca se pode substituir
Você pode até tentar
Fechar os olhos e em mim pensar
Mas não sou eu quem está ali
É um outro alguém que você desesperadamente tenta
Curar a ferida feita quando o amor lhe mordeu
Com a magia da caricia, do beijo amado
Dos laços quebrados e tantas vezes remendados
Tornaram imune e frio
O seu coração de loucura e paixão

E agora façamos o que quisermos com este amor

Que guardamos, em silêncio, os restos de suas breves lembranças
Tentação, romance e doçura
Corpos entrelaçados, beleza e frescor
Nunca admitir saudade e vontade
De caçadores de amores

Simoni Dimilatrov

Série: Amores Furtivos
Santos, 07 de março de 2017