sábado, 18 de fevereiro de 2017

CORAÇÃO VERDE


Coração verde
A cor de seu amor é verde!
De seu coração nunca transbordou amor
Nem sangue, nem fogo, nem ardor
Apenas orgulho e amor próprio
Amor verde

Coração verde
Em verdes e silenciosos prados
Teu amor descansa sobre o solo
Em lugares frios e intocáveis
Estranho é, o seu amor, verde.

O amor que de ti emana
É o amor por si mesmo
Distante e pedante
Insensível e impenetrável
Sem fogo, sem adoração,
Seu amor é verde!

Coração verde
Cheio de ranço e indiferença
Cheio de veneno e incompreensão
Nem um apoio, nenhuma consolação
O amor não é verde!

Coração verde
Tu só bates
Tu não sentes
Tu só reclamas e desdenha
Ás vezes, tão amargo como a biles
Que, nervosamente, eu e tu
Vomitamos, o sentimento aquoso e verde
Quando fartos e enjoados
Tu, do meu desespero
Eu, do seu rancor e desamor
Furiosamente verde como o veneno
Em jatos, o gosto insuportável
Que mata lentamente.
 

Coração verde, nunca mais pirilampos foram avistados
Costumavam brilhar como a beleza misteriosa de teu olhar
Profundamente verdes e desconhecidos como o mar
Que tanto ansiei navegar
Que tanto amei até me afogar
Que, tão poucas vezes, me pareceu ser permitido
Adentrar em teus estranhos domínios de amor e desamor

Coração verde
À deriva de tua ausência
De teu silêncio e sutileza
Em que fingias não ouvir
O grito surdo de meu pedido de clemência
Em que fingias não notar
O choro salgado que inundava meus olhos
Agora, loucos, tristes e sombrios

Coração verde
Minha alma, por anos,
Arrastou correntes lamentando
Por quê? Por quê?!
O meu barco afunda?
Sem rumo, pelos mares sombrios do norte
As sereias da tristeza quando cantam me assombram!
Me apavoram, elas guincham, riem e desdenham
Revelam que foram apenas promessas de horrores
Mas as estrelas sempre brilham
Em vejo a distante luz do farol que ainda me guia

Coração verde
Que tanto amei
Incapaz de aplacar qualquer sede
Incapaz de entender o medo
Incapaz de atos bravos e sacrifícios
No turbilhão insano do seu amor
Braviamente, lutei e nadei
Engolindo a fúria de suas intempestividades
Densa, amarga, ácida e salgada

Coração verde
Meus braços foram cansando
De tentar lhe abraçar

Coração verde
Minhas pernas perderam as forças
De tanto tentar, para ti nadar

Coração verde
Seu amor me encheu os pulmões
Até me roubar não apenas a sanidade
Mas toda a minha vida e o meu ar

Coração verde
Eu te amei
Até, tudo de ti, num violento tsunami
Perseguir e inundar
Para mudar e moldar todo o meu ser
 

Até que, num misto de jubilo e dor,
Em ti, me afoguei e morri
E comigo morreu, doente e verde
O nosso amor.



Simoni Dimilatrov
Apátrida, 19 de fevereiro de 2017




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

OS PECADOS DO REIS


Este é o fim
De um ciclo que termina
Em tristes tons de cinza
De algo que, um dia, começou
Como uma história real
Que se tornou ficção

Um laço de afinidade nascia
Naquela manhã fria
Manifesto em um aparente gesto de humildade
Escondia soberba e vaidade

Fez transmutar um ato de sórdida maldade
Em um ato de bondade
Criou e atou um laço forte de amizade
Rósea era a esperança de dias felizes e prósperos
Belo e ameno como o início da primavera
Que prenuncia o perigo cego e surdo
De se fazer obedecer por promessas
De fictícias empreitadas, em tons de sépia

O amor por três musas
A que conta velhas histórias
E a que rememora grandes memórias
E a mais bela, de olhos enigmáticos e tristonhos
Lábios à anos de 1920,
Belle époque, boca de coração, precioso rubi
E, intocavelmente, pura e virginal

O anjo que do céu nos fitava
Com seus olhos azuis, maravilhada, abençoava
Uma amizade que nascia feito história encantada
O nobre e piedoso caçador
Que surge providencialmente
Para salvar e resgatar
Outra mocinha ameaçada e injustiçada

Belo anjo que chora no céu
Este é o fim de nossa história
Nossos heróis nunca existiram
Nossos amigos nunca estiveram lá
Nunca se esteve certo do que sentir ou do que fazer
Nunca se entregou, como nós que profundamente ousamos
Mergulhar no mar da maledicência
Com lealdade e coragem

Apenas, mais um conto
Como todos os outros
Ficção e criação de uma falsa salvação
Quem indignamente, nos usou
E, somente em si, como sempre, apenas pensou
E, aos nossos corações inocentes e benevolentes
Usou e frustrou

O eremita segue isolado
No seu trono solitário de poder
Nada de grande ensinou
Nada de importante compartilhou
Muito menos, a todos reuniu e agregou

Na pele de cordeiro, havia um lobo
Furiosamente egoísta e soberbo
Tentando ser bom
Ao ponto de acreditar que a vontade de sê-lo
Mudaria o seu Ser
Com sua gula dantesca nada delegou
Toda concorrência denegriu e afastou

O pobre rei não prejudicava
Mas não estava certo
Sobre o quanto se entregar e o quanto se envolver
Sobre o quanto lutar e, realmente, defender
Ambiguidade e infantilidade
Desistência e isolação
Preferia os jogos da solidão
O egoísta jogo da vida:
Monopólio

A medida em que,
Cada vez mais ele avança em poder e fama
Os degraus da escada do sucesso, o topo quase se alcança
Pouco falta para o fim do jogo
Uma questão de tempo, para ocupar o tão sonhado trono
Desejando anunciar o Xeque Mate
Que fará cair a Rainha de Espadas

Quando o jogo chegar ao fim
E, nenhum lugar houver mais para onde subir
O homem, solitário e infeliz
Em cujo amplo sorriso e humor burlesco
Esconde o seu lado sombrio e negro
Mudará de jogo:
Solitária

E será
Fatalmente, o princípio do fim
Do vazio que conduzirá a reflexão(?)
De ter restringido todos os seus planos, sucesso e realização
Apenas para si e aos outros, não?
Talvez se lembre ou não
De ter tido uma única e leal amiga na vida
Que não a honrou e virou as costas
Sem nenhuma compaixão

Todos os sonhos que estavam de pé,
Quando construídos sobre os escombros de outrem
Desmoronaram e se tornam ruínas
E, arremessam à própria ruína

Eis o maior pecado, do Reis.

Simoni Dimilatrov
Série: Retratos Verdadeiros da Alma
Apátrida, 17 de fevereiro de 2017

Imagem:
The Fat King by Chenthooran The Fat King by Chenthooran




LÁGRIMAS DE CRISTAL



Eu ouço um Allegro
Nem lento, nem muito alegre
Para esquecer os maus tempos
No esforço transcendental
Entre a alegria e a tristeza
Para conseguir seguir com a vida

E assim, dissipar as nuvens pesadas
Das manhãs nubladas
Quando, nas noites mais escuras da alma
Eu possa, talvez, adormecer naturalmente e, em paz
Sem ter que recorrer
A momentâneas pílulas de felicidade

Mas, o calor tem que ser ameno
Para não queimar a pele alva
Muito menos ferir os delicados olhos cinzentos
Tristes e cansados do velho chorar

Sim, eu sinto e não quero lembrar-me
De memórias passadas e de cristais quebrados
De corações batendo em diferentes compassos
E nem de promessas que se foram
Como palavras levadas pelo forte vento noroeste
Que instável, esquenta e esfria
Numa espiral sufocante de poeira

Os anos se vão
Os rostos e os gostos mudam
Mais um inverno
Sepulta um turbilhão de emoções que morreram
Sonhos, embora perdidos,
Eu não me rendo

Alguns corações são como rochas
Eternos em seu endurecimento
Frios como mármore
Polido, claro e belo

Distante daqui
No tempo e no espaço
Estátuas não choram
Não falam, não sentem, não sofrem
Só eternizam, uma história
Um lapso da eternidade
Condenadas em mostrar a mesma cena
Em triste contemplação
O registro de que um dia houve um sentimento
Que não teve mais conserto.


Estátuas choram
Lágrimas de cristal
Palhaços não choram
Escondem a sua dor, em silêncio
Sobre os véus eternizados

Simoni Dimilatrov
Apátrida, 17 de fevereiro de 2017.