sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ÁGUA DE TEMPESTADE



Tudo começou com uma intensa ventania
Nesta terra, árida e vazia
O mau tempo e o veneno
Forçavam a rastejar
Pelas sombras escuras do templo

Presa e hipnotizada
Pelo brilho e engano do falso mestre
A serpente que se aproveitava
Enrolava e paralisava
Num vai e vem insano
De paixão e servidão

Enquanto entregue a fascinação,
Cada vez mais e mais
A mente e a alma cegas e arruinadas
Encantando, inebriando e usando
Nem percebeu-se quando aqueles gordos olhos
Cintilavam, se apoderavam e a tudo devoravam

A boca perversa sussurrava promessas incertas
Ela, crédula, amava e acreditava
Devotada, fiel e escrava
Viciada pelo veneno tóxico e alucinógeno
Tinha a consciência totalmente dominada

Até que a serpente se fartou
Digeriu e caprichosa enjoou-se
E, de seu vômito negro,
Restou, apenas, frágeis ossos

O implacável guardião do umbral,
Em um golpe prateado de desilusão fatal
A fez morta, putrificada, maldita e exilada

Mas veio a intervenção
Através de um poderoso e estrondoso Trovão
Para lavar e curar a venenosa sedução
E abrir o olho da percepção
E mostrar quão era tola e falsa
Qualquer esperança de ascensão

O deus Trovão surgiu
Arremessando, com força e honra,
O seu poderoso e sagrado martelo
A chuva e suas águas divinais
Finalmente chegavam
Em pesadas e depressivas nuvens cinzentas
Entre raios dourados e divinos
Libertar e despertar
Esfriar as cinzas do que restou
Da sábia e imortal fênix
Agora, curada e perfeitamente refeita

Uma voz, antes apática e muda
Contida e imersa
Ao completo abandono e silêncio
Ressuscita, sobre a água de tempestade,
Para um novo e desconhecido recomeço

Sobre as bênçãos de um anjo andrógino
De cabelos metade azuis, metade vermelhos
Ela aprende a dividir, equilibradamente
Dois pesos em duas medidas

Exerce a sagrada missão
Da sabedoria alquímica
Do exato manejo das duas mágicas e invisíveis urnas

E, apenas...
O tempo e o vento
O silêncio e a solidão
São necessários para contar com exatidão
As areias do tempo
E não mais
Memórias desbotadas ou histórias envelhecidas

Contar para formar
O conhecimento e o compartilhar
De grandes Obras

Até que vai
Indo com a maré
Mergulhando no azul profundo do mar
Ondulando, inalterada
Avançado no tempo
Sem mais perder
Nenhuma gota sequer
De sangue, suor e lágrimas.

Simoni Dimilatrov
Santos, 27 de janeiro de 2017

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A UM AMOR BANDIDO: BONNIE E CLYDE



Princesa delicada e de índole violenta
Bonequinha, linda loira espoleta
Queria viver uma vida intensa
Em seus olhos brilhavam duas malignas estrelas vermelhas

Transgressão e inconsequência
Vibração e atração
Assim nascia uma tórrida paixão
Divertida, pervertida e indecente
Um amor psicopata que se aventura e se deleita

Romance, prazer, desvio moral
Planejar, saquear e matar
Com um frio na barriga do perigo do cometimento do crime correr
E depois, num recanto seguro o carro encostar
Para no escuro rir e comemorar
Notas, moedas e joias contar
E nus celebrar
Tudo o que o luxo pode comprar

Armas e rosas
Sexo e pedras preciosas
Beijos e balas de pólvora
Batom vermelho e sangue fatal
Vibravam no temor e no imaginário coletivo
Como a linda e estilosa Bonnie e o sexy e poderoso Clyde

E, como piratas do asfalto, nas ruas e estradas
Eles pilhavam com seu velho Ford negro
Entre cigarros, gim e blues
Assaltos a bancos, estupros e assassinatos

O intrigante fetiche de ser um casal anormal
O orgulho de serem, famosamente, imoral
Formaram família, na verdade quadrilha
Eram a mãe e o pai de delinquentes
Sua trupe atacavam e matavam gente decente
Um bizarro estilo de vida bandida

Sangue e morte
Fama e glamour
Vidas ceifadas sem lamentos ou crise de consciência
Eram como troféus conquistados pelos seus torpes feitos
Ousadia e escárnio pelo sofrimento alheio
O registro fotográfico da soberba da crueldade
Debochava e desafiava todos os limites da barbaridade

Clyde, o gangster campeão, generosamente presenteava
A sua pequena e delicada amada Bonnie Paker
Com revolveres prateados no qual registrava
Declarações de amor eterno e devotado
Não era apenas o vil metal que os movia
Mas o tesão e o deleite que a “vida loka” trazia

E pouco importavam quão procurados fossem
Fizeram de seus imbatíveis Fords V8 rabecões mortais
O dar com o “pé na tábua” excitava-os ainda mais
Emoção, deliciosamente vivida, pelos amantes
Capaz de sentir mais êxtase em fuga
Do que quando se entregam a carícias mais libidinosa

Bonnie e Clyde
Vivos ou mortos
Cabeças a prêmio, motivo de um orgulho estranho e extremo
As recompensas de uma vida de fama e transgressão
Para eles não tinha preço

Não temiam o trono que ocupariam
Se capturados, sentenciados e executados fossem
A cadeira elétrica era um destino improvável
Mas ainda assim um “grand finale” dignos de Rei e Rainha
Serem executados lado a lado
Com ampla cobertura internacional e muitas fotos
Como num filme antigo de bandido e polícia
Qual seria o desfecho do mais ousado
Amor bandido da história?

No fundo sabiam, tão certo como a vida e a morte
Que corriam insanamente para um trágico destino
Do risco dos delitos que sempre cometiam
Das fugas repletas de adrenalina
Das quais nunca tiveram medo
Era sempre tudo ou nada
Era sempre muito intenso
Tal como o amor, o poder e o dinheiro

E, numa tranquila manhã de sol
O dia da graça chegou
Na estrada, com seu Ford céu de baunilha
Felizes seguiam a vida
Um planejado motim disfarçado de obra do acaso
Os fizeram parar para um viajante ajudar

Uma suave brisa, de repente soprou,
Uma revoada de pássaros o massacre avisou
Bonnie e Clyde foram surpreendidos
Por um metralhar breve e intenso
Seus belos e jovens corpos dançaram por um eterno momento
Ao som e a dor, a foice da morte brilhou
Cravejados de balas

E assim, o casal violentamente sucumbiu
E seu sangue maldito jorrou e se uniu
Sem chance de defesa ou de clemência
Tiveram um fim inevitável e fatal
E imortalizaram o seu amor bandido e real.


Simoni Dimilatrov
“Grandes Amores da História Universal”
Santos, 25 de janeiro de 2017.





 

sábado, 21 de janeiro de 2017

À UM AMOR DEVOTADO AO EXTREMO SACRIFÍCIO


(à estimada memória de Jeanne Hébuterne e Amadeo Modigliani)

Eu sei como encontrar você
Eu sei onde você está
Eu ouço sua voz me chamar
Enquanto o vento está a soprar
Fazendo para longe voar
O seu velho e tão amado chapéu
A mais valiosa relíquia que me destes ao conhecer-me
E que me coroou como sua amada mulher
Ao me proteger da fina chuva que caia
No dia em que o nosso amor nascia

E, de todas as mazelas da difícil sobrevida
Que eram todas esquecidas
Pois o seu imenso e alegre amor
Era toda a vida e alimento
Que me preenchia da mais intensa felicidade

O toque de sua pele
O gosto doce do amor de seus beijos
O calor fogoso de seu abraço
O enlace que me extasiava
Enchia-me de vida e matava todas as minhas fomes de viver
O som do seu riso, a beleza do seu sorriso
Encanto, paixão e loucura
E meus olhos sorriam
De amor, de todo o meu amor, por você
Lhe dei minh’alma

Agora a chuva que cai
Se mistura aos tons mais tristes de azul
O azul tão límpido dos meus olhos
Nublados como o céu das manhãs outonais de Nice
Foram transfigurados em profunda escuridão
Desde que a morte levou-te de mim
E me condenou a vagar cega e transtornada
A procura de você

E assim é,
O desespero e a imensa dor
A solidão que me convida a ti me juntar  
Desde que fora arrebatado para o outro lado  
Pela impiedosa dama da morte
Pelas ruas sombrias,
Perambulo sozinha
Minha mente perdida
Nada tem mais sentido

Não pode o destino obrigar
A cumprir com o dever
A ser forte e moral
Lutar para seguir sem você
E cuidar dos frutos do nosso amor
Que este esquálido corpo
Ainda insiste em manter
Mas que a imensa dor
Me faz esquecer
Que ainda há vida, amor e esperança
Que, apesar de toda esta má sorte,
O seu amor vive dentro de mim
Os nossos corações se tornaram outro coração
Mas esta amaldiçoada alma
Já não tem mais coração

Eu sei como procurar você
Eu quero encontrar você
Eu sei onde você está
Eu ouço sua voz me chamar
Eu sei que me esperas
Eu estou subindo as escadarias para o céu
Para poder voar
Tão rápido quanto a urgência de meu amor anseia
Irei a ti, para sempre me juntar
Não precisará mais esperar, triste e sozinho
Será rápido e fatal
Meu amor...


II

Em assim como o velho chapéu
Que o vento gélido como o hálito da morte levou
Mostrou a ela a direção
Do país para o qual ele fora levado
E onde sempre é verão

Da janela, ela se jogou
Para reencontrar
O maior dos amores
O amor que está além da escolha da vida e na morte

III



E assim, ela escolheu
Cumprir a promessa de estar com ele,
Na alegria e na tristeza,
Na saúde e na doença,
Na riqueza e na pobreza,

Porque amaram-se como um só corpo, coração e alma
Amaram-se mais que a tudo neste mundo
Amaram-se mais que a si mesmos
Respeitaram o direito de manter-se juntos em amor
De permanecerem unidos pela eternidade
E ela em um ato extremo de sacrifício
Decidiu terminar com a sua vida
Para na morte reencontrar o seu grande amor
Foram leais, foram fiéis ao seu Amor
Em todos os dias de suas vidas
Em todos os dias de sua morte

Quem pode julgar aqueles que se amaram
Ao ponto de se tornarem um?
Quem pode julgar, um homem que conheceu de verdade
A alma da mulher amada lenta e intensamente?
Em que sua única riqueza eram sonhos
Repletos de estrelas inatingíveis
Retratos de uma incomensurável paixão
Estranho seria se não se amassem além da morte
Estranho seria se ela não fechasse os olhos para a vida
E, em seu mortal voo de desesperado amor
Finalmente, encontra-se a chave que a levasse ao caminho
Onde, o sol da manhã brilha para os amantes na soleira de sua porta
E, de braços abertos, ele a esperava
Para todo o sempre.   


Simoni Dimilatrov
Santos, 21 de janeiro de 2017

"Grandes Amores da História Universal"