sexta-feira, 30 de setembro de 2016

CISNES NEGROS



Onde estás que desaparecesse totalmente?
Que, por encanto, parece que nem existiu?
Aconteceu aquele amor lindo, belo e ideal?
Que parecia tão real, tão atrevido e tão espiritual ao mesmo tempo
Tão intenso e contraditório que parece ter servido apenas para deixar
A memória mais dolorosa
Triste loucura, limbo e inferno
Cativo e silenciosamente secreto
Como doença escondida que machuca, fere e depois mata
E que me fez perder-me na vida, num último sonho
Que, a sua ausência e conformismo tornou-se pesadelo
Covardia e mentira, jamais me amaste?
Eu tola, ingênua, carente e destroçada
Lograda pelo romance e a esperas de tardes douradas
Para, emocionada, me dar, de corpo e alma
Para ouvir mentiras de amor
Doces logros que, o tempo todo,  me ferem, me assombram, me matam lenta e cruelmente
Eu que, na verdade, vivo morta, o que fui? O que sou? O que serei?
Sem misericórdia, sem amor, sem você
De não ter nem o direito de ter a mente apagada
Sem o direito de um brilho eterno sem lembranças, ao contrário, tudo são trevas
O coração partido, ferido, sem o direito de ser destruído pelos vermes
Que, ao menos poderiam roer e findar este amor maldito.

Não! Definitivamente não!
Não houve qualquer indulgência,
Só a condenação pelo crime de amar e ser supostamente amada
Houve apenas luxúria e um balé de dois cisnes negros que fugiram de uma gaiola
E se entrelaçaram e se amaram em um lago no outono
No jardins secretos de um sonho de liberdade
Descobertos, capturados e condenados
Presos, eternamente, ao Sentimento de Saudade
Que, se formou em um só coração, ao se amarem
Coração negro, que partido, se tornaram duas metades
Destinadas, a seguirem, eternamente, Separadas.


Simone Dimitrov
Santos, 30 de setembro de 2016

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

DIVAGAÇÕES


OBSERVANDO

Eu tenho andando pelas ruas com olhos vagos
Distraídos, talvez efeito de um ou outro remédio
Desses que se usam, hoje em dia, para suportar um pouco a vida

Mas ao mesmo tempo que vagueiam, observo as pessoas, as ruas, os movimentos com uma lucidez tão exata, qualidade rara, que talvez poucos desenvolvam
Todos possuem e usam e são possuídos e usados
Pessoas, afetos, desafetos, sorte, sucesso
Problemas , doenças, aparências, seria impossível descrever tudo que noto e sinto seja individual ou coletivamente.
Não se sabe ao certo o que é mentira e verdade em cada rosto que por mim passa
Se é um rosto inalterado ou completamente modificado pela tecnologia, medicina, estética...
Apenas a natureza permanece a mesma, as árvores, os pássaros
As flores, as garças, os velhos canais, peixes e as muretas de Santos que teve quem tivesse a ousadia de recomendar o destombamento de um símbolo no velho discurso: tudo pelo progresso, pelo dinheiro e pelos votos!

Para mim, eu ando a esmo, eu sou a mera observadora desconhecida de tudo
Vejo como nascem, como crescem, como vivem, como trabalham
Quem ganha, quem perde, quem ama quem odeia
Quem é cercado de gente falsa e verdadeira
Quem é limpo, quem é sujo
Quem são os raros realmente corretos e os garantiram sua eternidade no inferno.
E que aquele que é absolutamente só
E os que sofrem toda espécie de injustiça e perseguição.

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O TEMPO

Os dias são os mesmos
O sol nasce e se põe
As ondas eternamente vem e vão
Os anos passam
Os moços se torna maduros, depois envelhecem
E eu assisto a tudo isso muda
Como um expectadora escondida ao lado da cortina de veludo vermelho
Esperando o último ato acabar
E os aplausos
Ou as vaias

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O VAZIO

Queria sentir, me emocionar, sorrir ou chorar
Mas tem sido cada vez mais aquém de todas as possibilidades do que ainda há de humano em mim
Não há mais afeição e mas também não há desapreço
Pois se há, a única alternativa é virar a página para manter a paz
Há em mim um gosto de nada
Como se nada fosse palatável
Não sei dizer em que momento me perdi
Nem quando perdi o gosto de ser e estar
Ou se sempre estive perdida mas estranhamente entorpecida
Por alguma ilusão sonhada e desejada
Ou por alguma ilusão convencida por alguma mentira acreditada
E eu acreditei tanto
E não acredito mais, nem em milagres.

Não se trata de desesperança
De perdas ou de não realizações
De tudo ter sido sempre adaptações
De tudo ser, na verdade, como se pode ser
Entre viver e sobreviver, o velho dito popular disse que a gente vai levando
E não me enganem com aparências!
Todos, os humanos são assim!
Mas poucos admitem.
Hombridade, coisa do passado.

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AMIGOS

Amigos, eu tive um ou outro
Que me faltariam dedos para completar duas mãos
E eu sempre fui amiga. Daquelas que defendem como própria cria
Agora não posso dizer o mesmo sobre os que fazem parte de rol seletos e impenetráveis.
Os amigos que a distância e a mudança na vida levou, ainda estão em algum lugar do passado, guardados a sete chaves e que sempre permanecem no dia em que a juventude dos corações faziam da lealdade lei, o apreço sincero, ingênuo e puro, no coração permanecem.
Eu sou amiga, leal, sincera e honrada como era-se a moda antiga
Mas não posso afirmar se me estimam, a mesma maneira
Não há em mim a futilidade e a aparência costumaz
E sim uma profundidade de alma e extravagância
Silêncio e isolação.
Creio ter fechado o círculo
A culpa foi da maledicência

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A CRISE DA MEIA IDADE

Tudo diferente na meia idade
O rosto, o cabelo rareando, o brilho nos olhos indicando em porcentagem o grau de felicidade ou de fracasso
E a teimosia em acreditar no entusiasmo, especialmente o alheio
Um desânimo difícil de ser disfarçado
O peso dos anos traz uma dor estranha
Mas ainda, uma dor mediana num nível cortante de avaliação
Do ser ou não ser
Do fui o que eu quis ser
Se não fui e agora?

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VELHICE

Mas nada disso deve-se comparar aquele que espera o final
Esperar a morte pela idade
Quando ela virá?
Isso sim deve ser muito doloroso, em todos os sentidos

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A ALMA

Me dei de corpo e alma
Depois tive a ambos esterilizados
Por inconsequência, por escolhas, por dever

Nem o corpo e nem a alma eram mais minhas
Sem corpo e sem alma, porém dever cumprido
Mas refletindo, é algo que se cede, não se pode cobrar
Nem gemer, nem chorar, nem reclamar
A missão era dar e eu me dei
Não importando se o mais profundo e importante gesto de se doar  
É percebido ou não
Nem se a solidão, o silêncio e a dor
Jogou-me em trevas e lágrimas
Para que houvesse luz e riso a quem isso foi sacrificado.
A dor é minha e também o suportar

Simone Dimitrov
Santos, 28 de setembro de 2016.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

CRUZANDO AS ONDAS



Eu estou cansada de viver
Estou cansada de morrer
Eu, ainda sei que falta tempo
Ainda falta meio caminho a seguir
Esse vazio assassino
Desolação e retidão

Com os pés descalços, o cascalho que machuca
As bolhas e os calor que não valeram de nada
A correria diária não levou a lugar algum
O suor insuportável por tentar e tentar...
A chuva que, ao invés de refrescar,
Alagou, destruiu e afogou
E o meu coração
Partido em mil pedaços multicor
A dor do ressentimento, é como um câncer
Segue-se em frente, curso da vida
Remendando com novas tentativas
Quebrado novamente, novas cicatrizes
Algumas sangram eventualmente
O que a memória não esquece
Ao ponto de fazer enegrecer e endurecer
Continua a bater, dor e sangue
Nem sei porque, talvez para continuar a machucar
Eu gostaria de ter uma razão para continuar a viver
Que não fosse o impedimento espiritual
Repudiado por um Deus que nos testa
Até ao ponto do insuportável
Esse corpo que carregamos e ao qual estamos acorrentados
Que, ao longo dos setenios, vai mudando
O balanço das contas das perdas e ganhos
Dos sonhos e planos
Perdidos, adaptados ou aos que tiveram a sorte de tê-los realizados

Quantos rostos e sonhos já tivemos?
Quantas vezes enxergamos nossa verdade alma no espelho negro?
O brilho do seu olhar, continua reluzindo?
Ou se apagou diante das trevas de tantos desafios, erros, barcos afundados
Que todos abandonaram, menos eu, talvez você?
Em cada nível de covardia, numa escala de zero a nove

A coragem para viver livre das amarras
E não permitir mais que os pés doam
Que os corações se quebrem
Que o suor e as lágrimas sejam em vão
Nesta antiga moldura que contém o seu eu
Uma imagem que não se reconhece
De tão manchada que foi pelo choro silencioso
Aquele que escondemos, para ninguém ver
Aquele que fica contido no espírito
E que águam as flores que poderiam florescer
Na terra do descanso em paz
Tentei jogar flores amarelas no mar
Mas elas voltaram a margem e eu pude ver
Quando não adianta mais
Que é tarde demais.

Simone Dimitrov
Santos, 28 de setembro de 2016.