sábado, 15 de outubro de 2016

PALHAÇO NO NEVOEIRO



O palhaço na esquina
É o mendigo louco sob as intempéries
Do dia e da noite, a loucura e o silencio presentes
Faça chuva, faça sol
Ninguém ri, ninguém chora
Ninguém lamenta, todos ignoram

Por anos sentado no meio fio
Em transe balança incessante a cabeça
Num estranho rito e mania
Seus olhos vagos e alucinados
Sempre mirando o céu
Como quem nada espera

No palco da vida não existe o riso
E, nas horas tardias, o palhaço se torna
O assustador fantasma da meia-noite
A vagar pelas ruas escuras
Sob o nevoeiro e a luz entrevada da lua

E assim segue o bobo sem piedade nem corte
Sobrevive nas ruas vive feito estátua de bronze podre
Em costumaz e nojenta mania
De caçar e comer os piolhos que empesteiam, a fedorenta cabeça
Entre os restos da caridade quem o alimentam, ás vezes lixo
O que dizer, o que fazer?
Se ninguém nunca o ouviu e a mão lhe estendeu

A vida é como um show que deve continuar
E assim, o mendigo esquizofrênico
É ignorado pelo poder público
Até que chegue o derradeiro dia
Em que o show terminará
Com a vinda do carro fúnebre
O palhaço buscar

E, lá, em uma vala comum
Sem pompa e circunstância
O palhaço não terá o último adeus
Sequer um lamento ou lágrima derramada
Morreu sozinho e ignorado
Por todos os corações de pedra
Que por ele passaram
Solidão, desprezo e dor

E assim, o show terminou
Um mendigo como tantos outros
Um problema facilmente resolvido
Finalmente, da vida se livrou e descansou

Enterrado como indigente
Nada foi a não ser alguém que o mundo esqueceu
E que daqui partiu sem ter conhecido
Amor, cuidado, carinho e justiça

Voe palhaço, estás livres de sua sina e de sua triste máscara
Voe para o sol que lhe queimou o rosto a vida inteira
Voe para a estrelas cujo brilho atenuou o horror de suas noites
Voe para a liberdade, para bem longe da terra da falsa caridade
Recobre a sanidade e a dignidade

E que todos os omissos que, em vida, lhe ignoraram
Paguem o preço do mal feito e dos maus tratos
Sintam a sua fome, a sua dor, cicatrizes e infeliz sina
Pois agora, fecharam-se as cortinas
O show terminou, e o louco enfim descansou.

Simone Dimilatrov
Santos, 15 de outubro de 2016.





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