quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

PARA SEMPRE MAIS

(dedicado a Edgar Allan Poe e Virginia Eliza Clemm Poe)


Beba Sr. Poe, o último e mais amargo trago
Da taça da morte, que já lhe predestinava um destino sombrio
Dos líquidos do útero de tua desconhecida e infeliz mãe

Entre o carteado,
A fumaça intensa de cigarros
E o quase estado de coma
A visão grotesca do último delírio

Não percebia que jogava com a própria Morte
Apostando a sua vida já que a mente estava perdida
E, os espíritos que assistiam, a bizarra partida
Eram os quais, inconsciente, sempre compactuara
Tenebrosas assombrações atraídas pela depressão
Que, contra Poe, torciam e se contorciam
Ondulando junto a combusta obsessão
Que arruína e destrói o sopro de vida

Um carta, apenas lhe resta
Guardada sobre a manga
Do esfarrapado, imundo e negro casaco velho
O fedor de murrinha, de mofo e de morte
Empesteava a sala escura tornando tudo cada vez mais insalubre e lúgrube
Enquanto Poe lançava a sua última cartada
Um três de copas, mortalmente,
O fim do jogo anunciava

E a foice brilhante de prata ofuscou e, de pronto, cortou
A consumação de toda aquela dor
Que, finalmente, terminou
Dor e terror que não voltam, nunca mais
Absolvição e contemplação
Sobre o cortejo fúnebre
A morte se tornara desejada e tardia
E, a eternidade, de repente se mostrava
Mas luminosa do que a vida
Em seu triste sepulcro florescia
A mais bela flor, alva como Virginia

Enquanto a névoa se dissipava
Nas margens do entremundos
O fim do delírio, finalmente, dava lugar a lucidez

Ao longe, uma fantasmagórica e magra figura
Lentamente, se aproxima
Era Virginia, vestida de branco
Os cabelos belos, longos e negros como as penas de um corvo
Junto a sedas e delicadas rendas, esvoaçavam com o vento frio do outono
Os lábios de Virgínia sorriam e, inexplicavelmente, não eram mais roxos e ressecados
Um beijo de amor, tão esperado
Lábios carmesim com gosto de cerejas ao marrasquino
E reluzentes como o mais belo dos rubis

Virgínia...
Apenas beijava o rosto sofrido e amado
E, suavemente dizia...
Agora, para todo sempre
Sempre nunca mais é tardio demais
Para quem ama, anseia e espera

Seus grandes olhos negros
Refletiam a cena deles que, de dois, sempre foram um
Como num mágico espelho negro
Vírginia, sacerdotisa de Persephone
Espiralava entre passado, presente e futuro
Para que, passados a limpo e a fundo
Toda doença, loucura e dor
Todo o sofrimento que padereceram em seu amor
Fossem curados e renascidos

Em nome da eternidade de um grande amor
É, neste instante transformado,
E por mérito se torna sagrado
Pois todo aquele que se adora, se estima e se busca incessantemente
Se reencontram e novamente se amam

E, não mais apartados
Não mais separados
Para todo sempre
Eternamente
Virginia sussurra...
Mais, mais e mais...


Simoni Dimilatrov
Série: Grandes Amores da História Universal
Santos, 08 de fevereiro de 2017

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