terça-feira, 26 de julho de 2016

SIREN(A)*



SIREN(A)*

Inverno no litoral
Mais um ano, de quantos que ainda restam?
O mar cinzento e melancólico
A companheira solidão ao caminhar
O incessante marulho,
Sempre o mesmo cantar
Na praia deserta, a beira-mar
Os pés nus, mente ao léu
Deixa-se levar...
Sempre para o mesmo lugar

No rosto o vento norte...
Sopra severo lembrando que tudo morre!

Frio congelante e dor
Zéfiro desalinha e leva os poucos cabelos
Desbotados pelo tempo
Ralos e partidos pela velha angústia de envelhecer
E ter que carregar o peso de ser e sobreviver
As várias mortes
Que sempre morremos e renascemos

Pudera tal ventania
Espantar para longe
A memória das folhas secas
E levar estas rugas frescas
Para distante daqui
Ou, a esperança de quem eternamente vela e espera
O tempo fazer apagar
Ou tornar a soprar a benfazeja brisa
Do verão e da juventude
Do frescor da primavera
De perfumes e romance

Mas sobre esta morta vida
A eterna penumbra e nevoeiro
Nem a luz do farol eu vejo

Um antigo e amado rosto
Se forma nas ondas barrentas
Um redemoinho que abre um portal
Para um passado atemporal
Sombrio, mudo e afastado
Triste lembrança da desvalida
Que de tanto chorar
Se afogou e morreu de amor

E segue assim, andante
Pelo tempo a vagar e a sangrar
A penar e expiar
Desvalida e demente

Como a ave da noite
A triste sirena
Entre maldições, cânticos e lamentos
Chora lágrimas de eterno sofrimento
Fazendo aumentar
O sal deste mar


S. Dimitrov
Santos, 26 de julho de 2016.

*Siren: pássaro dos antigos mitos eslavos pagãos que representa a tristeza.

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